O Mistério Dos Muros Ciclópicos Da Itália Central

“Em tempos remotos, antes do nascimento de Roma, a Itália era habitada por povos que deixaram monumentos indestrutíveis como um testemunho de sua existência. Essas maravilhosas obras, definidas como Ciclópicas, encontram-se densamente dispersas em muitas regiões, e frequentemente situadas no cume de montanhas, como ninhos de águia. Tudo isso abre espaço a especulações acerca de quem poderia ter construído semelhantes estruturas em lugares tão inacessíveis e por qual motivo.” Louisa Caroline Tuthill – History of Architecture: From the Earliest Times

 

Não é de se imaginar que o território italiano esconda obras tão imponentes, quase desconhecidas, que por séculos foram representadas na literatura clássica, em mitos, e que se tornaram objetos de intensa pesquisa para poucos arqueólogos e estudiosos. Ao longo da região do Lácio Meridional, na Itália, sobretudo nas regiões das províncias de Frosinone – conhecida como Ciociaria – e de Latina, essas obras de engenharia espalham-se por quilômetros. Elas podem ser admiradas não como ruínas de algum antigo povo mediterrâneo, mas como um complexo murário de pedras que protagoniza um cenário misterioso, sem qualquer limite entre mito e história, e que, em si mesmo, propõe um debate sobre suas origens. Conforme afirma o pesquisador Giorgio Copiz, em seu livro intitulado Come in Cielo, Così in Terra (Assim na Terra, como no Céu), “nem mesmo os antigos romanos souberam definir a proveniência desses monumentos”, o que nos faz pensar que as tais estruturas seriam ainda muito mais antigas.

Essas obras, conhecidas como Muros Poligonais Ciclópicos, são, também, tradicionalmente definidas como Acrópoles Megalíticas do Lácio, caracterizadas pela forma irregular dos enormes blocos de pedra e por serem encontradas no alto de montanhas, ou em posições estratégicas, muitas vezes isoladas. Destacaremos aqui alguns desses megálitos, sobretudo os situados nas cidades italianas de Alatri, Ferentino, Arpino, Norma (antiga Norba) e Segni.

De uma forma geral, a paisagem onde se encontram essas estruturas pode sugerir uma perfeita relação que seus antigos habitantes poderiam ter com a natureza. Essa influência os envolveria em um universo mitológico, o qual tem sido transmitido em forma de contos que ilustrariam a origem do território central italiano desses megálitos – ou “Terra de Saturno”, assim chamada pelo poeta clássico Virgílio. Alguns estudiosos concordam com a possibilidade da existência de civilizações avançadas que povoaram a península italiana muito antes dos antigos etruscos e que, portanto, tornaram-se misteriosas, em virtude do desconhecimento do que ou de quem fossem seus povos, assim como de onde viriam. Certamente, foram hábeis construtores, dotados de uma mente engenhosa, com conhecimentos extraordinários, e de surpreendente força ou suposta tecnologia para erguer grandes pedras, a ponto de também alinhá-las com precisão astronômica.  Essas inúmeras construções que povoam o território italiano marcam o registro de um período singular sobre a história das civilizações do mediterrâneo.

ACRÓPOLES POLIGONAIS MEGALÍTICAS, CICLÓPICAS OU PELÁSGICAS: UM MUNDO DE ESPECULAÇÕES

As misteriosas construções megalíticas se apresentam em um vasto campo de especulações, por isso foram formuladas algumas hipóteses sobre quem poderia ter erguido tais estruturas, bem como sobre as distintas denominações a elas atribuídas, e a época a que poderiam pertencer. E não podia ser diferente. A arqueologia tradicional tem apresentado pouco interesse em abordar os megálitos do Lácio e de aprofundar o seu estudo. Podemos com isso nos perguntar: qual a razão para tanto mistério? Um dos prováveis motivos para tal indiferença acadêmica, segundo explica Copiz, é a reiterada afirmação da crítica arqueológica oficial em definir os Muros Ciclópicos como criação romana e que, por isso, tem se tornado um assunto praticamente indiscutível. Sendo assim, dentro da pesquisa desse complexo megalítico, também conhecido como Paredes Satúrnias ou Pelásgicas, existem diversas vertentes, oficiais e não oficiais (fantásticas), para caracterizá-lo. De acordo com grande parte de estudiosos, algumas dessas estruturas seriam supostamente datadas a partir da Idade do Bronze (2300-1200 a.C), enquanto que outra versão afirma que seriam a representação de uma técnica inicial também utilizada pelos romanos, em época republicana.

Copiz ainda afirma que grande parte da tradição, apoiada pelos escritos de historiadores da antiguidade, atribui a fundação dessas localidades e suas obras megalíticas aos Pelasgos – povos vindos do mar. Por outro lado, teorias mais alternativas buscam um respaldo na mitologia para defender a tradição e democratizar os discursos ao entendimento de antigas culturas mediterrâneas. Essas teorias especulam, por exemplo, que o mito dos gigantes Ciclópicos teria uma real fundamentação, e que pode ter existido uma civilização de gigantes que habitaram a Itália Central, cuja robustez possibilitaria o erguimento das enormes pedras que formam os megalíticos.

Podemos, então, enfatizar que o fenômeno dos Muros Pelásgicos da Itália Central pertenceria à categoria de mistérios ou enigmas arqueológicos. Esses muros estariam conectados ou inseridos em uma mesma matriz social ou religiosa de outras civilizações que também realizaram grandes monumentos, como as localizadas na Grécia – com suas antigas edificações em Micenas e em Tirinto; e as que se encontravam no Peru –  com o exemplo dos megálitos de Sacsayhuaman, em Cusco. A verdade é que realmente pouco se sabe sobre esses construtores pré-históricos e suas estranhas obras megalíticas.

 

VIAGEM À TERRA DE SATURNO E DESCOBERTA DOS MUROS POLIGONAIS

Mesmo que nas últimas décadas o estudo acurado dessas estruturas poligonais, na Itália, tenha sido negligenciado ou despertado pouco interesse da academia, no passado, não muito distante, a sua descoberta foi de grande importância e estímulo para pesquisadores viajantes. Seu entusiasmo pelas “histórias” quase indecifráveis do Lácio meridional representou um importante avanço com relação ao registro arquitetônico e antropológico desse território e ao engradecimento de arquivos sobre os Muros Ciclópicos italianos.

A partir do século XVIII, a região dos megálitos era tida como a meta de viagem desses pesquisadores independentes, os quais reconheceram que aqueles ignotos “restos” de muros, ou de antigas fortificações, apresentavam-se um tanto desligados de qualquer estrutura conhecida de tempos romanos. Era como se aquele conjunto de grandes blocos de pedra respeitasse uma técnica ainda não identificada. Seria algo que teria sobrevivido ao longo de milênios e que, propositalmente, alí estivesse diante do olhar moderno, a refletir uma “nova” e enigmática maneira para enxergar o homem antigo e sua arquitetura. Alguns desses estudiosos conseguiram, em parte, trazer à luz a discussão sobre a possível proveniência dos autores dessas construções, a partir de dados históricos e técnicos.

Foi o caso do arqueólogo francês Louis-Charles-François Petit-Radel (1756 – 1836) que, em 1792,  realizou uma série de viagens pela Itália, com o objetivo de observar as riquezas deixadas pelos antigos povos italianos. Enquanto um apaixonado pela arqueologia, percorreu cada localidade – de Roma a Nápoles – com o máximo de atenção voltada, especialmente, ao território romano do Lácio. Após encontrar uma curiosa muralha, na pequena cidade de Fondi, sentiu-se atraído pelo modo como estavam distribuídas as suas pedras: tratava-se de uma construção que parecia ser realizada em camadas e completada por povos distintos, de épocas diversas, com diferentes técnicas. Pelo menos ao primeiro impacto essa teria sido sua conclusão. Era uma muralha, cuja base era composta por grandes rochas e a parte superior possuía um conjunto menor de pedras, semelhante ao que se conhecia da técnica romana, o que posteriormente foi constatado. Ao encontrar diversas outras estruturas iguais à base daquela muralha – como o complexo do megalítico de Circeo, na província de Latina –  Radel passou a investigar com maior cautela aquele tipo de arquitetura, certificando-se de que igualmente na Grécia estruturas similares àquelas faziam parte de sua paisagem.

Petit-Radel, a partir de então, tornou-se o primeiro estudioso do século XVIII a pesquisar os muros Megalíticos do Lácio e a considerar que tais edificações não poderiam ser de origem romana. Dedicou-se às localidades de Circeo, Fondi, Segni, Ferentino e Alatri, cujos dados de estudo formaram uma considerável coleção que se encontra na Biblioteca Mazzarina, em Paris. Passou a consultar escritores clássicos que abordaram o tema dos Muros Poligonais, como Estrabo (séc. I d.C) e Pausânias (séc. II d.C), e se utilizou da mesma terminologia –  “Ciclópico” ou “Pelásgico” – com a qual denominavam tais estruturas. Para o arqueólogo, portanto, os Pelasgos seriam os verdadeiros artesãos dos megalíticos. Esse povo, também conhecido como Ciclópicos, teria construído essas obras também em outros lugares: Grécia, Espanha e Ásia Menor, conforme localizado e documentado por Radel.

Ao propor a discussão sobre a origem dos Megálitos do Lácio, a partir de uma peculiar releitura das diferentes técnicas de construção – as megalíticas e as adotadas posteriormente naquele território – Petit-Radel foi de extrema importância para desconstruir o que podemos chamar de “dogma” romano que se tinha do território. O tipo de junção das pedras, tal como acontece nos megálitos, serviu de base para comprovação de que é possível destingui-lo do modo de construção romana.

Por volta do século I a.C,  já nos dizia o arquiteto romano Vitrúvio – em seu tratado De Architectura – que o tipo de técnica usada nos muros megalíticos não era a que se havia adotado em sua época. De fato, na zona urbana da antiga Roma não há qualquer registro desse tipo de obra poligonal, uma vez que podemos pensar, também, na presença do arco como aquilo que caracterizava a arquitetura romana. Os Muros Ciclópicos, no entanto, não possuem esse importante detalhe, e não há indícios de que o possuíssem no passado.

Assim como Petit-Radel, outros viajantes empenharam-se nas pesquisas e catalogação dos megalíticos na região do Lácio. Uma destacável contribuição foi a da arqueóloga romana Marianna Candidi Dionigi (1756–1826) que, no início do século XIX registrou, através de gravuras e cartas, sua trajetória ao longo das cidades ciclópicas em seu livro Viaggio in alcune città del Lazio che diconsi fondate da re Saturno (Viagens em algumas cidades do Lácio que dizem ser fundadas pelo rei Saturno). As localidades por ela investigadas foram Alatri, Arpino, Ferentino, Anagni e Atina –  todas pertencentes à província de Frosinone – as quais são descritas com detalhe, sobretudo a Acrópole de Alatri. O que a interessava sobre os Muros Ciclópicos era exatamente sua relação com a lenda da fundação daquelas cidades por Saturno e, por isso, declarou que concentraria toda a sua análise na descrição dessas terras.

Porta Maior de Alatri
Porta Maior de Alatri. Ilustração feita por Marianna Dionigi, por volta do início do séc. XIX.

Apesar de seu grande interesse e necessidade de descobrir o que as relacionava a Saturno ou à denominação “Satúrnias”, ela compreendeu que aquelas construções megalíticas deveriam ser tratadas com mais rigor científico. Conforme suas próprias palavras, “esse nome mitológico (Saturno) não deve confundir as verdades históricas com as fábulas, já que se pretende atribuir às cidades a tradição daquele mesmo Saturno”.  Por esse motivo, e por ter se mostrado cética com relação à origem mitológica dos muros megalíticos, propôs aos estudiosos da época uma criteriosa utilização do termo que os designasse pertencentes à mitologia de Saturno.

Sua curiosidade e afeição pelas obras Ciclópicas tornou-se particular na cidade de Alatri, ao declarar que não havia encontrado, nas demais cidades megalíticas, nada de similar à grandeza de suas muralhas. A pesquisadora enaltecia a perfeita conservação daqueles muros e ainda declarou que, de acordo com suas observações, acreditava que seriam feitos pelo povo Pelasgo, os quais ela supôs que também seriam denominados Ciclópicos, sempre devido à dimensão dos blocos de pedra. Em seu livro, ela compartilhou a ideia de que poderiam ser homens de força extraordinária, de grande corporatura, e que “não seria um absurdo conceder hábeis talentos mecânicos aos antigos para inventar máquinas que realizassem tais construções, desde a condução até o erguimento de grossos blocos de pedras”. Nesse ponto, é provável que a arqueóloga tenha cogitado a existência de uma civilização antiga e muito mais tecnológica do que podemos hoje imaginar. De onde viria essa tecnologia? É uma reflexão que ainda permanece em aberto.

Folheando as páginas do livro de Giorgio Copiz, encontramos uma preciosa informação a respeito de um certo Ferdinand Gregorovius (1821 – 1891), o qual foi um historiador alemão que também empreendeu viagens pela Itália e que igualmente sentiu-se atraído por Alatri. Suas considerações foram escritas no livro intitulado Wanderjahre in Italien (Passeios pela Itália), em que considerava a precisão do encaixe entre as pedras da Acrópole como um gigantesco mosaico. Além disso, sua admiração pela imponência daqueles muros foi tão significativa que, para ele, qualquer construção romana não transpareceria a mesma maravilha.

Podemos ainda citar os trabalhos do pintor e escritor irlandês Edward Dodwell (1767 – 1832), o qual também viajou pelo território do Baixo Lácio e realizou grandes registros de suas estruturas megalíticas, como em Alatri, Ferentino, Segni, Norba e Circeo.

A passagem desses pesquisadores viajantes pelo território de Saturno é considerada de grande importância, enquanto umas das primeiras impressões registradadas em forma de estudo crítico sobre o assunto. Seu material iconográfico enriquece ainda mais o patrimônio dos Muros Ciclópicos.

O MISTÉRIO DOS MEGÁLITOS

Como se tem notado, a presença dos Muros Poligonais, ao longo dos séculos, tem despertado a curiosidade de pesquisadores independentes. E ainda que nos séculos XVIII e XIX houvesse discordâncias sobre a utilização da mitologia ou a consideração de técnicas romanas e pelásgicas – assim como hoje se discute – todos concordavam com a ideia de que algo estranho pode ter influenciado qualquer que tenha sido a civilização que alí existiu, em um período remoto. Alguns acreditavam que a região do Lácio, em fins da era do Bronze, havia passado por um processo evolutivo extraordinário, causado por ações externas: seja através da adição de uma apressada tecnologia, seja por algum fenômeno natural.

A crença em uma suposta evolução tecnológica pode ser justificada pela necessidade que os povos daquela região teriam para se adaptar e que talvez a única alternativa seria aprender a aprimorar-se, o que poderia ter originado artesãos capazes de inovar suas técnicas. Essa inovação, assim mesmo, chegaria supostamente através de um agente externo –um novo povo emigrado – que viajaria por diversas regiões ensinando suas técnicas de construção.

Seria a presença de um povo construtor a responsável por lançar um dos enigmas que circundam os Muros Ciclópicos, que é, sem dúvida, com relação a qual teria sido a tecnologia para transportar e erguer as pedras.  A razão dessa técnica, ou o modo como as pedras são encaixadas, poderia estar também atrelada a um modo de prevenção antissísmica, o que supõem ter sido largamente utilizado na época.

Norba
Detalhe do muro ciclópico de Norba. Foto:©Dayana Mello

Mas além do mistério de natureza tecnológica, a região dos megálitos na Itália nos apresenta o que podemos denominar de conexão antropológica e estrelar. A região da Terra de Saturno revela um fenômeno o qual é completamente baseado no posicionamento das cidades desses muros ciclópicos e em seu alinhamento com as estrelas: segundo algumas análises, elas formariam a linha central da constelação de Gêmeos. O “esquema” de tal constelação é considerado também uma prova de que o povo que habitava ou que esteve presente naquela região, em tempos antigos, seria religiosamente conectado com o céu e com as estrelas.

Nessa mesma região, foi possível constatar que essa “religião estrelar” – conforme declara Copiz em seu livro Dagli Appennini all’Atlantide (Dos Apeninos à Atlântida) – realmente tem revelado importantes descobertas a partir das obras megalíticas. Isso significa que os povos antigos da Itália também consideravam a expressão ritualística, o culto às estrelas, algo prioritário e que regia a vida, desde a criação ou distribuição geográfica de seus monumentos, até os costumes diários.  Então, de maneira coerente, alguns pesquisadores concordam que, igualmente para os habitantes do antigo Lácio, o efeito dessa prática religiosa determinaria o posicionamento de tais sítios megalíticos, como uma forma de testemunhar o interesse daquela humanidade antiga por essa religião, ou por essa “comunicação” astral.

No texto intitulado Le acropoli megalitiche in Italia (As Acrópoles Megalíticas na Itália), presente no livro Le mura megalitiche: il Lazio Meridionale tra storia e mito (Muros Megalíticos: Lácio Meridionl entre história e mito), o professor Giulio Magli, da Universidade Politécnica de Milão, concorda com a provável relação entre as construções Ciclópicas e os rituais religiosos: ele afirma que “as ‘acrópoles megalíticas’ teriam sobretudo, se não exclusivamente, o objetivo de serem símbolos religiosos e/ou de orgulho e poder”, e ainda que “nas religiões do mundo itálico, etrusco, e depois romano, o divino se manifestava através dos ‘sinais’ interpretados pelos adivinhos, aos quais era também confiado o rito de fundação”. Todo esse aspecto religioso poderia, então, ser uma resposta ao porquê dessas estruturas estarem situadas em determinadas zonas, muitas vezes de difícil acesso.

Norba
Os misteriosos muros Megalíticos do Lácio e sua curiosa tecnologia que atravessa milênios têm intrigado pesquisadores. Na foto, parte de muro ciclópico em Norba. Foto: ©Dayana Mello

Mas por que havia essa relação geográfica e astronômica (ritual/ religião)? Por que representar o espaço terrestre com a diposição do espaço celeste? Seria realmente uma forma de comunicar-se? Tudo pode ser assim especulado ao julgarmos que esse desconhecido povo do Lácio baseou suas construções em um culto celestial. Isso leva então a conjecturas de que se tratasse de um possível método ou sistema de comunicação, não somente com os deuses, mas muito além do que se possa imaginar hoje em dia, isto é, uma comunicação com outras civilizações, uma conexão humana em plena pré-história e antiguidade.

O mistério a se revelar é o de que o Lácio teria sido habitado por civilizações que cultuavam as estrelas e relacionavam-se com outras humanidades. Eram povos certamente também marcados por algum tipo de evolução espiritual. A prática da religião astral poderia ser algo constante, a ponto de definir o território de suas construções, assim como as vemos hoje.

Segni
Toda beleza e mistério dos muros de Segni. Foto: ©Dayana Mello

Assim era a humanidade, não somente na península itálica, mas em diversas localidades do mundo, nas quais também realizavam seus rituais para recorrer aos céus e assim poder edificar, ou projetar, na Terra, as constelações: era uma humanidade profundamente envolvida pelo mundo simbólico e religioso, que representava o princípio de tudo.

 

SATURNIA TELLUS E CIDADES CÓSMICAS DO LÁCIO

“Assim, as cidades, os santuários e territórios possuem um arquétipo extraterreno, que é concebido seja como uma forma, uma imagem, seja simplesmente como um duplo existente em um nível cósmico superior. Por isso, quando se considera um determinado território e inicia-se a explorá-lo, são copiados ritos que repetem simbolicamente o ato da criação. Essa zona é antes de mais nada ‘cosmizada’ para depois ser habitada.” Micea Eliade Mito do Eterno retorno.

Copiz nos aponta o que ele define como um projeto de “cosmizzazione” – de exaltação do cosmos ou de preparação do ambiente para o cosmos – que provavelmente ocorreu na antiga região do Lácio, o qual é entendido a partir dos Muros Ciclópicos. Além de toda essa interação religiosa e astronômica ser a suposta base de todos os mitos, considera-se que o mundo seria controlado por uma única linguagem, amalgamada pela astronomia e geometria.

Em uma entrevista que nos foi concedida, o mesmo escritor e pesquisador Giorgio Copiz explicou um pouco a base de seu vasto estudo da Saturnia Tellus ou a Terra de Saturno. Seus estudos se baseiam na constatação do fenômeno astronômico nessa região, que relaciona as antigas cidades da Ciociaria, ou da província de Frosinone – caracterizadas pela presença dos Muros Ciclópicos – com a análise das civilizações itálicas, de diversas lendas e tradição do território. Desde o início dos anos 80, ele iniciou suas pesquisas a partir da realização de um mapa arqueológico da região Meridional do Lácio e a sucessiva constatação de que todas as localidades do “Baixo Lácio”, ou as cidades consideradas pela tradição fundadas por Saturno, eram situadas conforme o esquema de algumas constelações, e que as cinco principais representariam a linha central da constelação de Gêmeos.

Algumas dessas cidades satúrnias que ocupam, naquele território do Lácio, uma posição proporcionalmente idêntica às estrelas são Alatri, Anagni, Ferentino, Veroli, Arpino, Sora, Rocca d’Arce, Atina, Montecassino. Enquanto que as demais constelações às quais corresponderiam são as que estão conectadas ao mito de Hércules, sendo algumas delas Leão Maior, Câncer, Gêmeos, Águia, Hidra, Hércules, Ursa Maior. A referência a Hércules, de acordo com a mitologia, está na execução dos doze desafios ou trabalhos que o herói fora obrigado a realizar para que assim pudesse alcançar a imortalidade. Esses trabalhos também estão relacionados aos signos do zodíaco.

Saturnia Tellus, portanto, seria um território “mágico”, uma terra repleta de simbologias, onde em todos os lugares, sobretudo em suas construções megalíticas, haveria uma representação dos mitos e do cosmos. É, por isso, uma terra com bases mitológicas, intimamente conectada ao que diz a tradição a respeito de uma Idade do Ouro ou uma época de prosperidades. Mesmo que a denominem “mitológica” – relacionada ao mito de Saturno – é comprovado que na região da Ciociaria, segundo nos declara Copiz, a civilização que alí se estabeleceu também desenvolveu um comércio com matérias-primas, com minerais de cobre e de ferro, além da utilização da agricultura, produzindo uma região rica e florida, tal como é caracterizada a Era do Ouro.

 O poeta grego Hesíodo (século VIII a.C.), em Teogonia, conta a origem do universo e dos deuses, e Cronos é a divindade grega representada por Saturno na cultura romana. Segundo uma das versões da tradição mitológica, Saturno, após tomar o lugar de seu pai Urano, é destronado pelo próprio filho Júpiter e condenado ao exílio em terras italianas. Na região das montanhas do Lácio Meridional, Saturno teria fundado cidades para os homens, aos quais também ensinou a agricultura e criou um território próspero, harmonioso e de paz, como nunca mais foi verificado. Esse período assim foi chamado de Idade do Ouro e essa terra seria a Saturnia Tellus, a terra da abundância.

Toda essa trama de Saturno, de seu compromisso com a humanidade que alí vivia, denota um período particular de grandes mudanças, ou de evolução humana. Essa grande mudança que pode ter ocorrido no passado, testemunhou a criação de uma sociedade mais elaborada, ativa e diligente, também conhecida como civilização “madre” – igualmente associada à fecundidade. É então que se iniciam as especulações e hipóteses sobre a proveniência dessa civilização.

Ao explicar a constatação do alinhamento astronômico, Copiz nos disse que “as cinco principais cidades do Lácio Meridional são assim denominadas de Pentapoli Satúrnia e, de fato, as estrelas centrais daquela constelação (Gêmeos) tinham uma perfeita correspondência com os lugares marcados pela presença dos Megalíticos Ciclópicos ou Poligonais.” Para que se chegasse a essa conclusão, contou-nos que foi influenciado pelos escritos da arqueóloga Marianna C. Dionigi acerca de quais seriam as cidades megalíticas, e como se relacionariam geograficamente no mapa. “As cidades que Dionigi especifica são cinco: Anagni, Alatri, Ferentino, Arpino e Atina. A partir de então, tracei essas cidades no mapa. Posteriormente, conheci outro livro, La Progenie Hetea, de um grande pesquisador, o sacerdote Dom Giuseppe Capone”.

 Capone (1922-2009) foi um historiador e um verdadeiro amante dos Muros Megalíticos do Lácio, sobretudo os da Acrópole de Alatri. Dedicou sua vida a desvendar os mistérios dessas estruturas e a estudá-las do ponto de vista arqueoastronômico. Sua pesquisa baseou-se quase que inteiramente à Alatri, e por isso afirmava que a cidade seria um pedaço do céu planificado sobre a Terra. Além disso, Capone percebeu e afirmou, pela primeira vez, que seus muros também teriam correspondência com a constelação de Gêmeos.

Capone realizou estudos específicos em Alatri e, a partir de seu material, realizei essa pesquisa mais a fundo. Descobri que as principais estrelas dessa constelação são cinco e que correspondiam às mesmas posições e distâncias do que havia traçado antes sobre as cinco localidades citadas por Dionigi. Percebi que, na verdade, não somente as estrelas principais eram relacionadas às cinco localidades, como também todas as demais estrelas da constelação de Gêmeos tinham ligação com o sítio megalítico (de Alatri)”, explicou. Afirmou ainda que não acredita que esses alinhamentos sejam obras do acaso.

Alatri
Vista panorâmica da Acrópole de Alatri: uma possível cópia da constelação de Gêmeos. Foto: divulgação

Toda a discussão sobre essas estruturas ciclópicas pode nos provar que o relacionamento com a natureza e com os astros sempre gerava uma clara influência nas atividades práticas e religiosas dos povos antigos. Os megálitos do Lácio, ao demonstrarem tal orientação com o cosmos, também nos sugerem, de forma evidente, que seus autores eram donos de um grande conhecimento astronômico. Portanto, foi através da arqueoastronomia, aplicada nessa região, que se tornou possível constatar e estudar essa relação existente, extremamente complexa, sobretudo em Alatri, conforme analisado por Giuseppe Capone.

Com grande interesse, o professor Giulio Magli também tem dedicado especial atenção no estudo da arqueoastronomia dessa região do Lácio. Ele encontrou importantes aspectos em Alatri, como alinhamentos a estrelas muito brilhantes da constelação de Gêmeos, as quais não podem mais serem vistas no nosso céu, devido a um movimento particular terrestre, conhecido como Precessão – baseado nas mudanças de seu eixo de rotação. Seus argumentos sobre essa região são encontrados em obras como I Segreti delle Antiche Città Megalitiche (Os Segredos das Antigas Cidades Megalíticas) e Il Tempio dei Ciclopi. Civiltà megalitiche del Mediterraneo (O Templo dos Ciclópicos).

“DOGMA ROMANO” E O ENIGMA DOS CONSTRUTORES

 A respeito das declarações da arqueologia oficial, Copiz nos diz que existe um confronto entre acadêmicos que afirmam que os Muros Ciclópicos seriam construções romanas, e outros que acreditam que sua origem está no povo Pelasgo: “existem pesquisadores ou acadêmicos que não aceitam a teoria de que essas construções megalíticas possam pertencer a uma civilização muito antiga e muito anterior ao período romano. A arqueologia oficial, formada por esses estudiosos, de fato, nunca deu a devida atenção a essas muralhas ciclópicas”, afirmou.

A hipótese mais aceita, até o momento, para os que não acreditam na vertente romana, é a de que existiu um povo misterioso, emigrado e que ensinava técnicas de construção aos demais povos de onde se estabelecia. Esse povo conhecido como Pelasgo – vindo do mar, porém de terras (ainda assim) desconhecidas – teria deixado um território correspondente à Ásia Menor e ao que mais tarde se tornaria a Grécia, muitos anos antes da queda de Tróia, ou do fim da Idade do Bronze. Foi o povo que supostamente modificou e originou diversas civilizações, sendo representado pelas tradições através de uma suposta sociedade desenvolvida (mito de Saturno), e formada por grandes construtores fortes e inteligentes.

Indagado, inicialmente, sobre a capacidade desses povos, a sua chegada misteriosa nessa região, e se por acaso seriam os mesmos que teriam construído outros grandes monumentos, como as Pirâmides do Egito, Copiz respondeu: “Não acho que era o mesmo ou idêntico povo, mas se tratava de uma mesma cultura. Então posso afirmar que se tratava de uma cultura religiosa ou ritualística, uma vez que possuíam conhecimentos astronômicos, possivelmente ligados a rituais astrais. No território Italiano já existia o que muitos dizem ter sido uma civilização fantástica, que não se sabe se foi real, ou mesmo imaginária, bem como a qual período corresponderia, enquanto outra parte de pesquisadores afirma simplesmente que eram os Pelasgos”.

A civilização Pelásgica representa uma das mais significativas manifestações da proto-história do Lácio, mesmo que sua existência seja duvidosa, também em virtude da grande capacidade tecnológica a que normalmente lhe está atrelada. Sobre isso, Copiz afirmou: “Dentre as várias teorias, tudo o que foi escrito, todas as pesquisas, creio que é possível que já existisse uma civilização desenvolvida, a qual havia alcançado altos níveis (de tecnologia) e que de alguma forma desapareceu, sucumbiu. Esse povo foi extinto por diversos motivos… Ou seja, foi perdido..”. Ele ainda afirmou que podemos fazer uma analogia aos nossos tempos: tudo o que temos desenvolvido, toda nossa cultura digital, tudo, da mesma forma se perderia, se houvesse um pequeno terremoto, algo que destruísse os nossos vestígios, a nossa identidade. É exatamente uma hipótese lançada sobre o que pode ter ocorrido com essa civilização antiga.

No artigo intitulado Polygonal Walls and the astronomical alignments of the Acropolis of Alatri (Muros Poligonais e alinhamentos astronômicos da Acrópole de Alatri), de Giulio Magli, também encontramos a informação de que o debate sobre os Muros Poligonais Ciclópicos é envolto em uma longa tradição que remete à Idade do Bronze. Existe uma teoria que defende a atribuição das construções megalíticas a um povo que se estabeleceu na Itália, naquela época, e que levava consigo uma importante tecnologia Hitita. Esse povo era chamado de Pelasgi (Pelasgos). Sobre essa civilização Hitita, afirmou Copiz,“Giuseppe Capone havia considerado os Megálitos do Lácio obras realizadas por um povo médio oriental, denomindo Hetei, também conhecido como Hititas”.

Dessa forma, mesmo que muitos estudiosos tenham encontrado dificuldades para designar qualquer informação aprofundada sobre os Pelasgos, ou que muitos ainda neguem a existência desse povo, ainda existem alguns que os consideram originados dos Hititas. Isso significa que poderiam esses dois povos serem o mesmo, ou possuírem a mesma origem. Os Pelasgos são citados por muitos escritores clássicos, como Dionísio de Halicarnasso (séc. I a.C), Heródoto (séc. V a.C) e Hesíodo, e de acordo com eles, era proveniente do território que atualmente corresponde à Grécia – ou emigrado da Ásia Menor para a Grécia. De fato, esse povo teria ocupado o Peloponeso, as Ilhas do mar Egeu e, nessa região, passou a ser chamado de “Pelasgo”.

 Analisando etimologicamente essa denominação, o significado literal encontrado seria “povo emigrado da Ásia”, como também é conhecido o povo chamado Hatti ou Hetei. Sendo assim, ao fazer essa possível junção, alguns pesquisadores admitem que “Pelasgo” é um povo (Hatti ou Hetei) que emigrou de sua terra para outras regiões, onde em cada uma delas recebeu uma denominação diferente. Os Hititas, também conhecidos pelo confronto com os egípcios, seriam denominados Hatti em outras regiões, como na Assíria.

Ainda em seu livro Dagli Appennini all’Atlantide, Copiz nos permite o acesso a uma vasta informação acerca dos Pelasgos, o que ele denomina como povo do “Império Pelasgo”. Ele afirma que as poucas informações que os representam estão relacionadas ao que seria o último período de sua “história”, já que tudo sobre suas conquistas, construções, suas obras, teria se perdido. Pode-se, então, concluir que sua história terminaria, quase que completamente, em meados da Era do Bronze. “Daquele momento em diante, tudo o que for transmitido sobre os Pelasgos são apenas testemunhos ou recordações escassas, uma vez que foram forçados a fugir de sua terra, emigrando de um território ao outro, em busca de uma nova pátria”, declarou .

Semelhante ao que acontece com o “mitológico” Saturno, os Pelagos chegaram em território italiano e estabeleceram suas atividades artesanais, suas técnicas de construção, sistemas agrícolas e sua religião. Após considerável período de seu estabelecimento na Itália, como afirmam alguns historiadores, eles encontraram uma suposta resistência de outros povos itálicos que, junto aos etruscos, restringiram sua influência.

Mas voltando ao discurso do “mistério” que essa provável civilização compreendia, Copiz nos relatou que os gregos consideravam os Pelasgos como os primeiros habitantes da Terra, portanto de origem bastante antiga, e que eram dotados de incrível inteligência e qualidades sobrenaturais, similares aos deuses. É como se esse povo tivesse surgido repentinamente, já dotado de longa civilidade, por isso, seria já milenar. Mas esse povo, de elevado nível e capacidade de grandes realizações, estranhamente se perdeu.

A ATLÂNTIDA TIRRÊNIA E OS CICLOPES

Não só os Muros Ciclópicos italianos nos sugerem uma desconhecida tecnologia por trás de sua realização. Podemos observar em outras localidades esse tipo de técnica quase similar, como pode ser vista no Peru (Cusco) e na Grécia (Micenas), provavelmente oriundas de uma única matriz cultural. Muitos pesquisadores entusiastas pensaram, então, que esses povos poderiam ter se comunicado uns com os outros, de maneira ainda desconhecida atualmente, ou até mesmo que seriam os descendentes da Atlântida: teriam proposto que o território do Lácio Meridional pertenceria àquele famoso e perdido continente, cuja população era marcada por grande evolução mental e tecnológica.

A teoria da Atlântida Tirrênia foi pensada pelo pesquisador italiano Angelo Mazzoldi que, no século XIX, escreveu a obra Delle Origini Italiche (Das Origens Itálicas), na qual propôs que a Tirrênia – região do mar Tirreno – fosse habitada por um povo tecnológico, mas que sucumbiu devido ao aumento do nível do mar. Os habitantes da Tirrênia se refugiaram em busca de outras terras, e os que fugiram pelo mar foram chamados de Pelasgos, também conhecidos como espertos navegantes, antigos habitantes da costa italiana. Sobre suas construções megalíticas, Mazzoldi teria afirmado que são obras que deslumbram nossos artistas e que tornam reais os contos de uma população de gigantes.

Outro notável entusiasta e pesquisador independente – do início do século XX – foi Evelino Leonardi que, ao conhecer a teoria de Mazzoldi, quis desvendar os restos de uma possível Atlântida no território italiano. Sua obra Le orgini dell’uomo (As origens do homem), de 1937, revive o debate sobre a arqueologia misteriosa da qual se trata a busca pelos povos da Saturnia Tellus. Junto a essas suposições analisadas por Leonardi, afirma-se que esses fantásticos habitantes e construtores (Pelasgos) partiram ou fugiram da Itália, e que somente após sua permanência em várias localidades da Ásia Menor, eles retornaram àquela península, sua terra de origem.

Sobre essa teoria, Copiz  afirma que “nós conhecemos, através de Platão, que houve um território que foi destruído e que passou a ser chamado de Atlântida. No entanto, é possível que houvesse outra denominação, que talvez a chamassem de outra maneira. Poderia ser a Tirrênia, a Satúrnia”. Essa terra abarcaria a Itália e suas ilhas, formando um território ligado ao continente europeu.

Diante de todas essas especulações, existe ainda o discurso sobre a presença de gigantes no antigo território lacial, em que muito se afirma sobre suas obras Ciclópicas representarem a prova de que eles também teriam vivido como construtores, muito conhecidos na mitologia clássica como Ciclopes. Essa afirmação está além do que tradicionalmente os caracteriza como seres humanoides e gigantescos – representados na literatura de Homero – com apenas um olho, ou um olho adicional na fronte.  No entanto, de acordo com Hesíodo, esses seres são descritos como civilizados, aliados dos deuses, e que são hábeis artesãos. Portanto, os Ciclopes trabalhadores – possível conexão com os Pelasgos – teriam supostamente realizado as Acrópoles Megalíticas do Lácio.

“ALATRI E SEUS MISTÉRIOS”

“Sempre que me encontrei diante daquela construção titânica conservada em ótimo estado, quase não contando séculos e séculos, mas apenas anos senti uma admiração por uma força humana muito maior do que àquela que me inspirou a visão do Coliseu… uma raça que poderia edificar tais paredes deveria já possuir uma importante cultura e leis ordenadas.” Ferdinand GregoroviusWanderjahre in Italien (Passeios pela Itália).

As palavras de Gregorovius descrevem os muros de Alatri como ainda mais deslumbrantes do que a visão do Coliseu. De fato, sua Acrópole é considerada como o monumento ciclópico mais importante do Lácio, sendo a mais preservada, de comprovada conexão astronômica e relação com outros fenômenos.

Ornello Tofani, estudioso dos fenômenos dos muros megalíticos de Alatri, contou-nos em entrevista sobre suas pesquisas e descobertas na Acrópole, as análises arqueoastronômicas, e supostamente sobre qual teria sido o objetivo de seus construtores – tudo com base nos estudos do precursor Giuseppe Capone.

Para o pesquisador, essas estruturas são obras de um povo de inteligência superior e que pode ter desaparecido, devido a um cataclismo, e suas grandes obras megalíticas teriam sido encontradas por civilizações posteriores, as quais não souberam explicar quem as edificou e como. “Esse povo (Construtor) provavelmente veio do Noroeste da Mesopotâmia. Possivelmente, era um povo conhecido como Hatti, ainda antes dos HititasMas ainda há quem afirme que esse povo tenha obtido ajuda de uma raça de gigantes ou até de extraterrestres! O que sei é que foi um povo gigante de mente, cuja capacidade não se encontra mais hoje em dia. ”

Com relação à Alatri, “creio que seja uma estrutura feita para o culto: representaria um templo. Além disso, esses muros megalíticos possuem um curioso alinhamento astronômico”, e que por isso podemos supor que também seria uma espécie de grande observatório estrelar. Essa hipótese teria sua constatação a partir da análise de um pequeno e considerável baixo-relevo, descoberto por Tofani em uma das pedras, no ponto mais alto da Acrópole, o qual ele o denomina Triplice Cinta ou Templum, “semelhante à Típlice Muralha dos Templários”.  Ao ter fixado um gnômon no centro desse pequeno relevo e analisado o nascer do sol durante os Equinócios, observou que os raios solares projetariam perfeitamente sombras sobre a diagonal daquele relevo (Templum). O pesquisador acredita que esse poderia ser um indício de observação estrelar que se fazia no passado, através da localização daquele baixo-relevo, e que ele seria orientado astronomicamente. Semelhante ao que nos disse Copiz – segundo a teoria de Giuseppe Capone – sobre o fato de que Alatri teria sido projetada a partir de um ponto e que, após a realização de rituais no local, um povo (Pelasgo ou Hatti) aí teria se estabelecido.

A estrutura da Acrópole é composta de duas portas principais, conhecidas como Porta Menor (Portas dos Falos) e Porta Maior, e de acordo com Tofani, suas medidas seguem a proporção áurea que também pode ser constatada na análise da planta da mesma Acrópole. Além disso, de acordo com suas pesquisas, ele acredita que da Porta Menor é possível que se veja o mesmo enquadramento do céu, o qual pode ser visto também do ingresso da Grande Pirâmide do Egito, mas que sem dúvida é algo que ainda está sendo bem analisado. Outra característica importante e visível na mesma Porta Menor é a presença de três falos esculpidos – representados em forma de “+” ou de “T”- os quais estariam ligados à importância dada à fecundidade ou fertilidade por aquele antigo povo.

Dentro do contexto de fertilidade, Tofani nos apresenta uma interessante analogia feita a partir de uma imagem esculpida na parte externa da Acrópole. Após fotografá-la e examiná-la em 3D, ele afirmou que pode ser a suposta representação da deusa Madre (deusa da fecundidade). “Ela parece ser representada no momento da sua penetração, uma vez que também é visto o que pode ser um membro sexual masculino”. Entretanto, no início do século XIX, a arqueóloga Marianna Dionigi também fez sua interpretação dessa imagem e presumiu – diferentemente de Tofani –  tratar-se da figura de Saturno.

Penetração deusa Madre?
A comparação feita por Tofani: a imagem à esquerda  é o revelo esculpido na entrada de Alatri (que representaria a deusa Madre), à direita, encontra-se a imagem do que se acredita ser a  mesma divindade encontrada no sítio arqueológico de Gobekli Tepe. Imagens cedidas por Ornello Tofani.
Deus Saturno, por Dionigi.
Para a pesquisadora Marianna Dionigi, a figura em Alatri estaria representando o deus Saturno. A partir daí, ela realizou uma gravura do que se conseguiria enxergar.

Independente da versão de Dionigi, o pesquisador seguiu com suas hipóteses e fez uma analogia da mesma imagem da suposta penetração da deusa Madre com uma imagem encontrada no sítio arqueológico de Gobekli Tepe (XIII – X milênio a.C), na Turquia. Conforme nos afirmou Tofani: “(a deusa Madre) poderia ser uma representação comum das civilizações daquela época, o que poderia situar Alatri em um época remota, com certeza muito anterior ao romanos”. Outra possível representação da mesma divindade se encontraria em outro espaço na parte externa da Acrópole, onde existe uma grande rocha que se destaca na parede por sua forma particular. Provavelmente, afirmou Ornello que nesse espaço teria estado uma escultura da deusa Madre que dá à luz, similar a uma antiga estátua que se encontra no Museu das Civilizações da Anatólia, em Ancara. Trata-se da deusa Madre sentada com duas leoas, do período Neolítico (6000 a.C).

Um dado curioso foi feito ainda pelo professor Magli e que se encontra no livro Delle Piramidi di Giza all’Acropoli di Alatri (Das Pirâmides de Gizé à Acrópole de Alatri), organizado por Tofani. O professor associa o símbolo dos três falos da Porta Menor à forma das estrelas do Cruzeiro do Sul (Crux). Esse grupo de estrelas, até por volta do último milênio a.C, era bem visível na Itália e tinha uma presença importante. Magli afirma ainda que no lado da Acrópole orientado sobre as três estrelas da Crux, existem três grandes nichos esculpidos, cujo significado é desconhecido.

Alatri
Os três nichos ou Portas falsas de Alatri. Foto:©Ornello Tofani

Sobre esses nichos, Tofani nos contou que lembram aberturas ou portas falsas, e que poderiam estar conectadas às três estrelas do Cinturão de Orion. Ele ainda relatou o momento em que o teórico e pesquisador sobre o Egito Antigo, Robert Bauval, esteve em Alatri e viu essas três “aberturas”: “tive a oportunidade de levá-lo à Acrópole e quando ele observou as três portas de perto, afirmou que poderiam ser portas falsas ou entradas para as almas e as divindades, assim como também existem no Egito.”

Com relação à arqueoastronomia, o estudioso nos explicou que a Acrópole possui a forma de um polígono irregular o qual foi construído dentro de um projeto inspirado na Constelação de Gêmeos, conforme havia afirmado Giuseppe Capone. Entretanto, Tofani nos alertou ao que ele acredita existir também uma possível indicação relacionada a outro grupo de estrelas: “segundo Dom Giuseppe Capone, que foi o meu mentor e mestre, a forma da Acrópole corresponde à constelação de Gêmeos. No entanto, acredito que podemos fazer uma alusão à constelação de Auriga, já que em uma análise detalhada, é a que mais se aproxima exatamente à forma da Acrópole, e o ponto mais alto do Templo (Acrópole) também corresponderia à Capella, que é a estrela alfa, a mais luminosa de Auriga. Por isso, creio que poderia ser também essa a constelação que, de qualquer maneira, surge junto àquela de Gêmeos.”

Dentre esses variados fenômenos, estudados por Ornello Tofani, existe ainda o que está relacionado à arqueoacústica. Alatri estaria sujeita, muito provavelmente, à presença de microvibrações. Essa teoria foi analisada por Paolo Debertolis, da Universidade de Trieste, e foram constatados que de fato existem essas vibrações, e que são originadas por movimentos tectônicos, podendo causar um efeito de relaxamento no organismo.

Tofani ainda nos revelou que Alatri estaria conectada com outras localidades ou sítios arqueológicos, como o Egito e a capital do antigo Império Hitita, levando-se em consideração os dias do Equinócio e do Solstício. Sobre isso, ele afirma: “nós somos alinhados com Carnac (na França) e Gizé (Egito), em 21 de Dezembro; Hattusa (império Hitita), em 21 de Março e de Setembro; e com a pirâmide de Visoko, em 21 de Junho”. Alatri, portanto, estaria no centro de todo esses alinhamentos, mas ainda não se tem o conhecimento de qual o real motivo dessa suposta reverência dada a essa Acrópole.

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É verdade que todos os fenômenos que envolvem as estruturas megalíticas da Itália ainda carecem do apoio de muitos acadêmicos. No entanto, apesar desse quase “anonimato”, já existe um considerável material – ainda de produção local – sobre essas estruturas. Além dos registros feitos no século XIX, existem livros de uma associação ou grupo independente, da província de Frosinone, chamada Archeomitika – mantida hoje pelo pesquisador Georgio Copiz. Citamos algumas dessas obras, como Terra di Saturno (Terra de Saturno) e Antiche Popolazioni Italiche (Antigas Populações Itálicas), além das já mencionadas Come in Cielo, Così in Terra e Dagli Appennini all’Atlantide.

Essa associação tem reunido um grande acervo que inclui todos os mistérios arqueológicos do Baixo Lácio, ligados à mitologia, bem como reproduzido diversos artefatos encontrados, originando também uma espécie de “museu” Archeomitika. Para, então, propagar o melhor conhecimento sobre as construções megalíticas da região, o objetivo desse grupo é a grande divulgação dessas terras como um importante  incentivo aos turistas e aos italianos a visitá-las, conhecê-las de perto, e respeitarem a sua história.

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*Este artigo foi publicado na primeira edição da Revista Enigmas, de publicação única no Brasil. Lançada pela Editora e Livraria Anunaki, a revista fala sobre antiguidade, seus povos, “mitos” e deuses, e apresenta muito bem uma nova visão sobre os mistérios de antigas civilizações no mundo.
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